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CUBE 1

Face 1

Qual a ligação entre nossa cidade litorânea e a capital do maior país da América do Sul?

Mais do que aparenta: você vai se surpreender! Porque, embora ambas sejam criações totalmente originais, uma é herdeira da outra.

Neste verão, esses cubos revelarão sua história compartilhada. E as duas cidades fortalecerão seus laços históricos, culturais e artísticos durante a exposição « Utopias Urbanas », que acontecerá em Brasília de outubro a dezembro de 2026

BRASÍLIA, 1955. Juscelino Kubitschek havia feito uma promessa de campanha presidencial: transferir a capital do Rio para o coração do país. Presidente eleito, promessa cumprida! O arquiteto Oscar Niemeyer e o urbanista Lúcio Costa transformariam sua audaciosa ideia em uma obra-prima e um ícone global.

*Brasília foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial em 1987.

FOTOGRAFIAS: NICOLAS MILLET

TEXTOS: JULIE DAUREL

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BRASÍLIA, 1962. Este projeto grandioso intrigou um grupo de arquitetos franceses que havia ido a Brasília em viagem de estudos. Muitos deles zombaram das declarações poéticas de Niemeyer, mas um deles ficou fascinado pelas infinitas possibilidades oferecidas pelo concreto. Ele compreendeu que esse material permitia a exploração de todas as formas. Esse jovem arquiteto era Jean Balladur. Brasília mudou sua perspectiva. La Grande Motte nunca mais seria a mesma depois daquela viagem. Hoje, em ambos os lados do Atlântico, o diálogo continua!

*Foi a primeira cidade a receber, em 2010, o selo de « Arquitetura Contemporânea Notável »

por todos os seus edifícios e arquitetura

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Brasília ainda não existia. Sua criação foi decidida no mais alto nível do Estado e construída sobre uma cruz desenhada no mapa. La Grande Motte também teve origem em uma iniciativa presidencial. Charles de Gaulle queria revitalizar uma região onde a viticultura estava em declínio, atraindo turistas franceses e europeus.

Construir uma cidade do zero é o sonho de todo arquiteto. Mas esse sonho pode se transformar em um pesadelo se o local escolhido for hostil e inóspito. Brasília foi construída no Planalto, um planalto isolado cujo solo duro e pobre, laterita, envolvia o canteiro de obras em uma nuvem de poeira vermelha. La Grande Motte, por outro lado, teve que criar um oásis à beira-mar, entre o mar e uma lagoa, em uma faixa de areia desértica, saturada de sal e varrida pelos ventos! Então: genius loci ou desafio do terreno? Ambos, responderam os dois arquitetos audaciosos!

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Oscar Niemeyer trabalhou extensivamente entre a Europa e as Américas. Depois de Brasília, fugindo da ditadura, o General de Gaulle permitiu que ele exercesse sua profissão na França. Lúcio Costa, filho de um almirante, nasceu em Toulon, França, de ascendência franco-brasileira. Cresceu e estudou na Europa antes de retornar ao Rio para incutir um espírito de renovação. Jean Balladur também foi um arquiteto de renome internacional. Talentoso, ele se inspirava em suas viagens e leituras, transpondo elementos arquitetônicos para territórios específicos. Em La Grande Motte, sabe-se que sua viagem a Teotihuacan inspirou o formato das pirâmides e que sua estadia em Brasília o encorajou a usar o concreto com grande liberdade. Ele se inspirou em parques e jardins, praças e avenidas ao redor do mundo para projetar com precisão as proporções de sua cidade, « em escala humana ».

“BRASILIA É UM PROJETO ORIGINAL, INDÍGENA E BRASILEIRO, INSPIRADO PELA PUREZA DA DISTANTE CIDADE BRASILEIRA DE DIAMANTINA, PELAS VISTAS DE PARIS, PELOS PRADOS INGLESES DA CHINA, PELOS ALTOS PLANALTOS DA CHINA E PELAS AVENIDAS E PONTES DE NOVA YORK.”

LÚCIO COSTA

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CUBE 2

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Oscar Niemeyer e Lúcio Costa abraçaram as ideias modernas e funcionalistas de Le Corbusier. Chegaram a participar dos projetos do arquiteto franco-suíço no Rio de Janeiro e em Paris. Foi também essa arquitetura de ângulos retos que Jean Balladur estudou após a guerra. Inspirado por Mies van der Rohe, seus primeiros trabalhos eram caixas de vidro, que lembravam os palácios e ministérios de Brasília. Mas, às vezes, é preciso romper com as convenções. E os três se libertaram dos moldes para inventar um novo estilo arquitetônico, mais livre e mais adequado às suas novas cidades.

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CUBE 2

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Oscar Niemeyer projetou Brasília com total liberdade, confiando na adaptabilidade do concreto e no talento do engenheiro Joaquim Cardoso para dar vida aos seus esboços. Seus edifícios são mais poéticos, mais sensuais, talvez mais brasileiros.

Em La Grande Motte, Jean Balladur, diante de significativas restrições orçamentárias, não teve outra escolha senão usar o concreto. Por que, então, limitar esse material extraordinário a paralelepípedos retangulares? Tanto em duas dimensões (no bairro Levant) quanto em três dimensões (no bairro Couchant), ele explorou audaciosamente seu lirismo e expressividade.

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Os palácios presidenciais e ministérios de Oscar Niemeyer são caixas de vidro. Entre o reflexo da água em seus espelhos d’água e o céu de Brasília, as colunas esbeltas do arquiteto conferem-lhes um toque de fantasia, uma poesia bem-vinda.

Mas essa dupla camada de concreto, bruto ou polido, também os protege de olhares curiosos e das intempéries. Para Jean Balladur, as molduras, elementos que definem uma fachada, são essenciais. Porque a decoração testemunha « a presença da consciência e da liberdade humanas ». Graças à sua treliça de módulos pré-fabricados de concreto, ele criou um « cenário festivo », belo e funcional, que protege os terraços do sol e de olhares indiscretos.

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Para circular o ar em sua capital, com seu clima quente e úmido, e filtrar a luz com elegância, Oscar Niemeyer reviveu uma invenção brasileira de 1929. Batizado em homenagem aos seus inventores, Coimbra, Boeckmann e Góis, o cobogó é um tipo de divisória modular com um padrão mashrabiya que dinamiza as fachadas com sua geometria elegante. Em La Grande Motte, esse tipo de divisória também pode ser encontrado nos térreos de edifícios icônicos (Antinéa, Europa, Les Incas). Jean Balladur teve o cuidado de distinguir claramente essas entradas dos interiores dos edifícios. Para ele, cada entrada deveria ser a assinatura de sua construção.

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“Uma cidade ousada com amplas avenidas, mas ao mesmo tempo bucólica e urbana, lírica e funcional”: assim Lúcio Costa descreveu a dualidade poética de Brasília. Deu-lhe a forma moderna e aerodinâmica de um avião. Em seus superblocos*, os moradores caminhavam ao pé de casas sobre palafitas enos jardins do paisagista Roberto Burle Marx,o homem que logo daria ao calçadão de Copacabana suas ondulações características. Jean Balladur aspirava à mesma poesia ensolarada.

Com o paisagista Pierre Pillet, ele idealizou para os turistas um “Jardim do Éden”, uma “promessa de tranquilidade revigorante” no coração do “generoso reino de árvores e flores”. Em sua cidade-jardim, podia-se esquecer os carros e se locomover muito rapidamente e em qualquer lugar, a pé ou de bicicleta.

*“Vilas” urbanas, cada uma composta por 11 edifícios, uma igreja, uma escola, um centro cultural, lojas, restaurantes, etc.

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Ao pensar em Brasília, imaginam-se as cúpulas brancas do Parlamento, a corola da catedral, as esbeltas « faixas », por vezes revestidas de mármore branco, dos palácios presidenciais do Planalto e da Alvorada. Mas a brancura dessas obras-primas ofusca joias de concreto bruto, como o Palácio do Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores), no Eixo Monumental. Ou, fora da cidade, a Universidade, construída em 1962. Com suas fileiras intermináveis ​​de edifícios aninhados sob a vegetação, recebeu o apelido de « minhocão ».

Jean Balladur, por sua vez, tinha um carinho especial pelo Point Zero, um edifício fundamental e essencial em La Grande Motte, um centro administrativo, cultural e, em certa medida, comercial, projetado com um padrão de parábola, hipérbole e favo de mel em concreto aparente. Toda a geometria complexa, vibrante e poética à qual ele e sua equipe eram tão apegados.

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CUBE 3

Face 3

Desde o início, Niemeyer contratou o grupo de artistas que frequentava no Café Vermelhinho, no Rio, para Brasília. Pela cidade, os azulejos de Athos Bulcão formaram grandes murais multicoloridos. Os vitrais da artista franco-brasileira Marianne Peretti inundaram a nave da catedral com luz. As esculturas de Bruno Giorgi e Alfredo Ceschiatti, assim como o mobiliário de Zanine Caldas, realçaram a beleza austera dos ministérios. Graças a essa colaboração e ao apoio de milhares de candangos (operários pioneiros), o grupo do Café Vermelhinho realizou um feito notável: construir uma capital do zero em menos de quatro anos!

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CUBE 3

Face 4

Desde o início, a arte foi parte integrante do planejamento urbano e do projeto arquitetônico de La Grande Motte. Joséphine Chevry, Michèle Goalard e Albert Marchais trabalharam ao lado de Jean Balladur mesmo antes da construção da estância balnear. Suas obras singulares dinamizam os espaços públicos, fornecendo à nova cidade os marcos narrativos e simbólicos que lhe faltavam. Elas também pintam um retrato imbuído de humor, humanismo e uma modernidade elegante. Até o fim, o arquiteto buscou embelezar sua cidade através do olhar dos artistas. Ele tinha 70 anos quando encomendou os vitrais da Igreja de São João Batista ao mestre vidreiro Jacques Loire.